A Emergência da Deusa Negra: Uma entrevista com Marion Woodman

A presente entrevista foi publicada originalmente pelo blog Carl Jung Depth Psychology. O link para a postagem original está no final deste post. Considero Marion Woodman uma das principais autoras da psicologia junguiana, pois desenvolve como ninguém um tema nada simples, a sizígia anima-animus, de um modo extremamente sóbrio e profundo; fazendo a todo momento uma costura entre interior e exterior, isto é, entre os aspectos psicológicos e socioculturais. A presente entrevista nos pareceu especialmente importante por tratar sobre um dos assuntos mais relevantes de nossa época: a emergência da Deusa Negra em nossa cultura.


Em tradução livre por Lampeju

(Laboratório de Ampliação da Personalidade e Estudos Junguianos)

Tradutor: Luís Paulo Lopes

Revisora: Gabriela Junges


A Emergência da Deusa Negra: Uma entrevista com Marion Woodman

ENTREVISTADORA: Em seus livros, você escreveu bastante sobre a relação entre “o feminino” e “o masculino”. O que essas palavras significam para você e como a relação entre elas se expressa em nossas vidas?


MARION WOODMAN: Pelo que entendi do meu trabalho com os sonhos, existem duas energias em nossos corpos, assim como existem duas energias controlando a natureza.


Há uma energia muito ativa, analítica e lógica simbolizada pelo sol, e uma energia sintetizadora e relacional simbolizada pela lua.


Em nossos corpos, como na natureza, dependemos desse equilíbrio de energia entre o dia e a noite para viver.


No caduceu, o “logotipo” da profissão médica, essas duas energias surgem como duas serpentes que partem juntas de baixo e sobem pelos vários arcos até que, no topo, estão prestes a se beijar.


Bem, em nossas vidas, essas duas energias estão trabalhando o tempo todo para encontrar esse equilíbrio.


As palavras que eu associaria à energia feminina são “presença” – ser capaz de viver bem aqui, no aqui e agora; “paradoxo” – ser capaz de aceitar o que parece ser contraditório como duas partes da mesma coisa; “processo” – valorizar o processo em oposição a colocar todo o valor no produto; “receptividade” e “ressonância” no corpo – ter um corpo que é como um instrumento musical, aberto o suficiente para poder ressoar, literalmente ressoar com o que vem tanto de dentro quanto de fora, para que seja capaz de se render à poderes superiores a si mesmo.


Assim, por exemplo, um dançarino pode aperfeiçoar o instrumento tanto quanto possível, seus músculos podem ser tão fortes quanto for possível, e todo seu corpo estará tão altamente sensibilizado quanto o trabalho técnico pode torná-lo, mas, ainda assim, a grandeza do dançarino está em sua capacidade de se render ao poder do Divino à medida que ele se manifesta na música.


ENTREVISTADORA: E isso seria uma expressão do feminino?


MARION WOODMAN: Sim, exatamente – a palavra “rendição” [surrender].


O princípio do feminino é a abertura para a vida, morte, renascimento e a unidade de todas as coisas dentro desse ciclo.


É o mundo da natureza, percebe?


E esse é o mundo que, agora, está se esforçando tanto para ser reconhecido.


ENTREVISTADORA: Qual é a expressão do masculino, então?


MARION WOODMAN: O masculino – para contrastar com as imagens do feminino que usei – tende a saltar para o futuro, para algum futuro idealizado.


Ele tende a dividir as coisas em preto e branco; tende a encarar a vida em termos de "um ou outro" [discriminação] em vez de ser capaz de sustentar um paradoxo.


Agora, aqui devo salientar que não acho que “patriarcado” e “masculinidade” sejam sinônimos.


Acho que o patriarcado se identificou com o poder e que, como tal, mata o masculino tanto quanto mata o feminino.


Assim, o patriarcado exagera o "um ou outro", exagera o preto ou o branco.


Mas o masculino é simplesmente analítico e só reconhece o "um ou outro".


É mais focado que o feminino, pois pode se dirigir para um objetivo; pode discriminar entre o que é essencial para esse objetivo e o que não é essencial.


Ele pode discernir, pode usar a espada, pode cortar o que não é essencial para a ação em questão.


E estes são atributos positivos desde que estejam em relação com o feminino.


Eu vejo essas duas energias presentes tanto em homens quanto em mulheres, e o masculino sempre estará em relação com o feminino, de modo que estará protegendo o feminino, honrando o feminino e reconhecendo os valores do feminino.


O feminino é o lado do “ser”, e o masculino leva esse “estado de ser” para o mundo.


Também pode ser o "conector” meditativo interior, o que significa que pode conectar a alma ao Divino.


Uma mulher que está escrevendo, por exemplo, precisa do masculino para iniciar seu processo, para colocar as palavras no papel de forma lógica e informada.


Ela precisa desses poderes discriminatórios masculinos para abrir o caminho para o Divino entrar, tomar seu braço e deixar sua escrita acontecer, e ela também precisa da coragem e força masculinas para se permitir ser tomada.


Nesse momento, ela está tentando discriminar entre o pessoal e o transpessoal.


Isso pode ser muito assustador, e é aí que a coragem e a força masculinas são necessárias.


É preciso uma tremenda coragem para se render [surrender] nesse ponto.


Agora, isso é tão verdadeiro em um artista masculino quanto em uma mulher, então meu ponto é simplesmente que há um casamento divino acontecendo entre o feminino e o masculino em cada processo criativo.


ENTREVISTADORA: Em uma condição de equilíbrio, ou totalidade, qual é a relação entre as energias femininas e masculinas, não apenas no indivíduo, mas na sociedade como um todo?


MARION WOODMAN: No indivíduo, como disse, é um equilíbrio harmônico onde os valores do feminino são defendidos e honrados pelo masculino.


Agora, isso está tão longe de onde nossa sociedade está que é difícil imaginá-la nesse nível, mas talvez o exemplo de um relacionamento ou casamento possa ajudar.


Suponha que uma mulher decida que seu casamento não é mais um recipiente grande o suficiente para a pessoa que ela está se tornando.


Ela tem como valor que deve crescer em sua plena maturidade como mulher, mas ela está relacionada o suficiente para não querer ferir a alma de seu marido.


Ela pode usar uma espada para sair do casamento, mas aprende a usá-la com amor.


Porque se você sair de um relacionamento ou de um trabalho que você amou com ódio, você prejudica sua própria alma tanto quanto prejudica a outra.


É essa relação entre o masculino e o feminino que é tão importante, e esse é um equilíbrio muito difícil de encontrar quando você está em transição na vida.


Tem que ter a coragem masculina de fazer um corte se for necessário ser feito, mas tem que ter também o amor feminino que respeita a alma do outro.


Agora, em nossa sociedade, a mesma coisa se aplica, mas até agora, a maioria das pessoas depende da raiva e da violência para tentar fazer esses cortes e, portanto, não há equilíbrio entre o masculino e o feminino.


ENTREVISTADORA: Como seria a relação entre o feminino e o masculino em circunstâncias ideais?


MARION WOODMAN: Bem, pense em uma pessoa como Gandhi, por exemplo, onde você tem aquela feminilidade magnífica junto com uma força masculina incrível.


Ou tome um exemplo do mundo do teatro: Garbo desenvolveu um forte lado masculino e tornou-se ainda mais feminina, ainda mais atraente, à medida em que seu próprio masculino interior trouxe à tona o feminino interior.


Quanto mais uma mulher desenvolve sua masculinidade, mais feminina ela se torna, e quanto mais um homem desenvolve sua feminilidade, mais masculino ele se torna.


Então, para responder à sua pergunta, vejo essa condição de equilíbrio em pessoas maduras que sabem quais são seus próprios valores porque trabalharam muito para discriminar entre o que pertence à sua própria alma e o que não pertence à sua própria alma – pessoas maduras que valorizam seus sonhos e que reconhecem que a alma tem seu próprio padrão e sua própria vida para viver, e que lhe dão uma chance de viver essa vida.


Mas para fazer isso, eles teriam que estar em contato, como eu disse, com suas próprias imagens internas.


E eles teriam que estar em contato com seus próprios sentimentos internos, o que é uma coisa assustadora de se dizer em uma sociedade onde a maioria das pessoas é cortada pelo pescoço e honestamente não sabe o que está acontecendo a nível de sentimentos em seus intestinos, ou em seus rins, ou em seu coração, ou em qualquer outra parte de seu torso.


E essa é a tragédia, porque então explode em raiva.


Não há discriminação.


O masculino não tem a chance de entrar com nenhum tipo de ação discriminatória; a ação torna-se atuação.


Em uma sociedade onde os cidadãos estão em equilíbrio, eles têm essas emoções – essa raiva, por exemplo – mas é contida até que possa ser colocada em formas culturais, como uma peça ou uma dança.

Cultura é isso.


É manter a paixão em um ponto vital até que possa ser colocada em uma forma civilizada.


Mas em nossa cultura, há uma tendência de nem mesmo tentar segurar o recipiente, de dar forma criativa à tensão entre esses opostos.


Ao invés disso, se deixa as bombas, as facas ou as balas voarem, e se encena a raiva.


E onde estão os valores nisso?


ENTREVISTADORA: Você está dizendo que a forma de expressão mais civilizada poderia se estender além da criatividade pessoal para animar a estrutura da própria sociedade?


MARION WOODMAN: Claro, e isso acontece periodicamente no planeta.


Quero dizer, existiram culturas, quando atingiram seu pico, onde esse equilíbrio aconteceu.


Mas lembre-se, mesmo isso continua mudando.


E agora, acho que estamos nos movendo, e a transição é feroz porque temos que passar por essa terrível quebra desses velhos padrões patriarcais para encontrar os novos.


ENTREVISTADORA: Em seu livro Dancing in the Flames, você descreve a figura de uma deusa negra ou Madonna que tem aparecido com frequência cada vez maior nos sonhos de muitos homens e mulheres contemporâneos, e você descreve isso como uma indicação de que o feminino está "forçando passagem das profundezas do inconsciente coletivo como uma força universal que fala individual e culturalmente”. O que exatamente está acontecendo aqui e o que isso significa?


MARION WOODMAN: Bem, a meu ver, perdemos o contato com o feminino, com nossos sentimentos em nossos corpos e com o próprio planeta.


Agora, sonhos coletivos apresentam novos desafios.


Por exemplo, a luxúria no corpo agora precisa ser unida ao amor na alma.


A tradição judaico-cristã separou o corpo da alma, e agora esses sonhos da deusa negra estão trazendo à tona a imagem de uma mulher muito luxuriosa e apaixonada que valoriza a vida e está apaixonada pela vida.


Por exemplo, estou olhando pela janela agora, e todos os botões estão brotando e as flores estão desabrochando no jardim, e há aquela sensação deliciosa de amar – amar e viver – que é o reconhecimento do direito de nascimento da própria vida, em que a luxúria e esse amor são expressos juntos.


E este é um dos problemas mais cruciais da nossa cultura:


Muito sentimento está reprimido em nossa própria “terra humana” – ou seja, em nossos próprios corpos.


Para muitas pessoas, fingir não se importar é a coisa maior e mais importante; não se deve esquentar com nada.


Em outras palavras, eles cortam a paixão: então a vida se torna chata até que eles explodem em um acesso de raiva.


Agora, não estou sugerindo que a deusa negra seja um objetivo final. O objetivo final, em termos do feminino, é trazer à tona essa energia escura até que ela encontre sua forma civilizada, e tirar a deusa branca de seu pedestal, seu pedestal idealizado que mantém as mulheres em uma forma desumana nas mentes da maioria dos homens.


A idealização a confina em um estado celestial que deve eventualmente se transformar em um estado demonizado porque, em sua incompletude, é simplesmente desumano.


Assim, o objetivo é tirar a deusa branca de seu pedestal, tirar a deusa negra da repressão e juntá-las – luxúria e amor juntos.

E, novamente, isso é para homens e mulheres, porque homens e mulheres têm essa trágica divisão em sua feminilidade – e em sua masculinidade.


ENTREVISTADORA: Como sabemos que a deusa é, como você está sugerindo, uma força cósmica feminina emergente, impessoal, que está se revelando a um número crescente de seres humanos com a intenção de revolucionar a vida e a consciência humanas?


MARION WOODMAN: Não sei. Eu não sei disso. Como poderíamos saber?


Tudo o que posso dizer é que acredito que Deus — espírito masculino e matéria feminina — está falando conosco diretamente por meio de nossos sonhos.


Os sonhos, sendo metafóricos, sendo a conexão entre o espiritual e o físico, são a linguagem da alma.


E eu vi mensagens desta Madonna negra em centenas de sonhos, e todas elas parecem ter uma intenção criativa na vida da pessoa a quem elas chegam.


Então eu vejo a deusa negra como representando um insight cumulativo que eventualmente terá um impacto no planeta.


Não está acontecendo apenas aqui, você sabe; está acontecendo por toda parte.


E essa deusa é, aliás, amada na Índia — Kali, a deusa da vida e da morte, da criação e da destruição, é a deusa hindu mais reverenciada.


Mas nosso país não lidou com Kali porque não gostamos de pensar que a morte faz parte da vida – mesmo que tenhamos acabado de terminar o inverno!


Quero dizer, se pensássemos nisso, saberíamos que a morte leva a uma nova vida.


Então eu não sei, mas acho que temos que aprender a aceitar o mistério, aceitar que o Divino é misterioso e que se achamos que sabemos tudo, estamos grosseiramente enganados.


ENTREVISTADORA: A teóloga feminista radical Mary Daly escreveu que “‘Deus’ representa a necrofilia do patriarcado, enquanto ‘Deusa’ afirma o ser amoroso das mulheres e da natureza”. Você concorda com a afirmação de que o patriarcado é inerentemente destrutivo, enquanto o matriarcado é inerentemente benéfico?


MARION WOODMAN: Mais uma vez, acho que o patriarcado se tornou destrutivo.


Acho que quando começou na Grécia antiga, houve uma tentativa de trazer a nação à consciência.


Esse foi um passo muito importante na evolução da humanidade.


Mas agora está conectado ao poder – poder sobre a natureza, poder sobre outras pessoas, poder sobre nossos próprios corpos – e as pessoas se identificam em termos de poder se estiverem no pensamento patriarcal.


Assim, o patriarcado perdeu seu senso de parentesco e seu senso de amor; está em uma fúria selvagem agora.


Mas não posso concordar que o matriarcado, por si só, seja a solução.


Acho que o matriarcado inconsciente pode ser tão cruel quanto o patriarcado.


Se uma pessoa é dominada pelo aspecto negativo do arquétipo da mãe, a voz interior continua a rosnar: “Quem é você? Quem você pensa que é? Você não pode realmente conseguir nada. Você não é ninguém.”


Essa voz é um disco quebrado que continua e continua dentro do cérebro, e pode vir tanto do feminino quanto do masculino.


Então eu simplesmente não posso aceitar a declaração de Daly.


Parece-me que todos nós temos que lutar pela consciência.


E não se trata mais de estar sujeito a pai/patriarcado ou mãe/matriarcado.


É sobre nos encontrarmos e assumirmos a responsabilidade por nós mesmos como seres humanos maduros e crescidos.


É disso que eu acho que essa grande transição se trata.


Estamos deixando de ser crianças e adolescentes, e estamos sendo forçados a assumir a responsabilidade de tomar decisões maduras – ou não vamos sobreviver como planeta.


ENTREVISTADORA: Na entrevista desta edição com Sam Keen, o autor de Fire in the Belly, apresentamos a ele sua visão de que dentro de cada um de nós, homem ou mulher, existem energias masculinas e femininas que precisam ser equilibradas para nos tornarmos inteiros. Keen respondeu: “Existem dois tipos de pessoas. Aqueles que dividem o mundo em duas colunas e aqueles que não o fazem. Por que começar com duas colunas? Acho que isso é uma espécie de tirania intelectual. É totalmente inútil para mim dizer: ‘Agora tenho que equilibrar meu yin com meu yang. Sou muito yang ou muito yin?' Se tudo em que consigo pensar é 'tenho que fazer isso ou aquilo', se tudo em que consigo pensar é masculino ou feminino, isso é uma espingarda na minha cabeça. É por isso que não gosto do junguianismo e detesto a ideia de arquétipos.” Qual é a sua resposta às críticas de Keen?


MARION WOODMAN: Aprendi a aceitar o fato de que existem energias em todos os seres humanos que podem acabar com a personalidade e, pessoalmente, acho prudente ter uma ideia do que são essas energias.


Esse seria meu comentário sobre os arquétipos.


Quero dizer, qual é o sentido de viver se não há nada além de um mundo plano e sem significado?


E quanto a ter que dividir tudo em yin e yang, eu não fiz nenhuma divisão em yin e yang.


Estamos vivendo em um mundo dividido em yin e yang.


Há masculinidade, há feminilidade; há noite, há dia.


E a energia funciona como um ímã: polos opostos se atraem e polos iguais se repelem.


Então eu acho que se você quer paixão real em sua vida, você precisa reconhecer que os chamados opostos são apaixonadamente atraídos um pelo outro.


Sem essa diferenciação, você não tem o “fogo na barriga” – e a vida não vale a pena ser vivida sem esse fogo.


ENTREVISTADORA: No entanto, com relação aos opostos, você também escreveu: “Deixe-nos… tentar evitar o 'um ou outro' patriarcal e passar para o feminino 'ambos'. Nesse paradoxo, reside o mistério de ser humano.” Você poderia explicar por que, na sua opinião, o feminino é “ambos” [both/and] e o masculino é “um ou outro” [either/or]?


MARION WOODMAN: Como expliquei anteriormente, é o "um ou outro" [either/or] patriarcal que divide as coisas em dois, que está continuamente estabelecendo diferenças, ao passo que se você olhasse para a natureza como uma expressão do princípio feminino, descobriria que em um pequeno pedaço de terra há uma centena de organismos vivos diferentes trabalhando juntos para dar vida ao planeta na primavera.


Todo o mundo natural tem esse incrível ecossistema "ambos" [both/and], assim, você não precisa se livrar de uma coisa para ter outra.


Não é "um ou outro" [either/or].


Você aceita o preto, o branco, o vermelho, o rosa; você aceita tudo como um.


E o verdadeiro masculino, como eu o entendo, honra isso.


ENTREVISTADORA: Você também afirmou que “Os opostos são complementares, não contraditórios. Eles são parceiros na dança da vida — parceiros, isto é, na interação contínua entre o observador e o observado. Essa dança, essa interação não pode ocorrer em um mundo de absolutos, pois tal mundo não tem espaço para diferentes modos de percepção – apenas para um Deus patriarcal que é ele próprio o observador e o observado”. Por que os absolutos não deixam espaço para diferenças?


MARION WOODMAN: Bem, os absolutos apresentam seus opostos, mas os polos estão tão distantes que eles nem conseguem reconhecer que são dois lados da mesma moeda.


Então, se, para usar um exemplo que já falamos, você idealiza as mulheres de um lado, inevitavelmente vai demonizá-las do outro.


Quando uma mulher “trai” você porque não consegue viver de acordo com o ideal que foi projetado nela, há uma tendência dos homens a vê-la como uma traidora, uma sedutora, uma bruxa má que sugaria suas entranhas – certo?


Então, com absolutos, os polos estão tão distantes que é sempre uma situação de "um ou outro", preto ou branco.


Você não pode juntá-los.


Enquanto que de uma perspectiva não absoluta, os polos não estão tão distantes.


Porque dessa perspectiva feminina há uma dimensão humana, e a dimensão humana é imperfeita.


E dentro desse mundo imperfeito, as diferenças não são apenas possíveis, mas de fato essenciais para tornar a vida interessante.


Se, por outro lado, você está em um mundo absoluto onde o que você quer é a perfeição – por exemplo, o mundo nazista que queria a perfeição da raça humana – não há absolutamente nenhum espaço para o jogo de opostos e, portanto, não há espaço para a dança.


A dança continua entre valores diferentes, e há um mistério no centro da dança.


O ponto imóvel no centro da dança é esse mistério, e continua mudando.


E é isso que é tão interessante sobre a vida – que até o ponto imóvel continua se movendo.

À medida que sua percepção evolui, o ponto imóvel se move.

ENTREVISTADORA: A ideologia de Hitler é sem dúvida um dos exemplos mais horríveis que já vimos dos perigos que podem resultar da adesão a uma visão absoluta. Mas, ao mesmo tempo, houve outras figuras ao longo da história que são conhecidas por terem defendido o que também poderia ser chamado de visão absoluta com o objetivo de alcançar um resultado decididamente diferente. O Buda, por exemplo, até onde sabemos, aspirava a um tipo de perfeição e encorajava seus seguidores a fazerem o mesmo. Seu ensinamento de iluminação teria os mesmos tipos de implicações sobre as quais você está falando?


MARION WOODMAN: Não posso falar sobre isso porque não estou mergulhada no budismo.


Mas eu sei que quando, por exemplo, Cristo fala sobre ser “perfeito”, essa palavra significa “totalidade”.


Não se trata de cortar tudo em você que não é aceitável; trata-se de trazer à tona tudo em você que contribui para a totalidade de quem você é.


Em vez de ser perfeito em uma área muito pequena de si mesmo, você estará tentando ser um ser humano completo, e isso coloca um limite no objetivo da perfeição.


ENTREVISTADORA: Mas se, como você sugere, uma visão última ou absoluta nega inerentemente a rica interação de opostos que compõem o mundo em que vivemos, ao mesmo tempo não se poderia dizer que o feminino, como você definiu, nega inerentemente uma perspectiva última ou absoluta que sempre transcende tudo?


MARION WOODMAN: Sim, eu diria que sim.


Agora tenha em mente que estou falando do meu próprio ponto de vista, e não pretendo ser uma filósofa ou teóloga.


Mas a palavra “transcender”, como é usada pela maioria das pessoas, significa vir de cima, ver tudo de cima, e esse é o uso da palavra a que estou respondendo.


Para mim, porém, a palavra “transcender” também pode significar ver tudo de baixo.

A maioria dos viciados, por exemplo, encontra sua cura mergulhando no trauma que causou seu vazio em primeiro lugar.


À medida que aprendem a amar a si mesmos e a honrar a si mesmos com suas próprias imperfeições, seus corações se abrem.


Eles podem amar a si mesmos e a outros seres humanos.


Eles transcendem o inferno que não podiam suportar, não voando para cima e para fora da vida, mas descendo e entrando na vida.


Então céu e inferno deixam de ser opostos polarizados.


Paradoxalmente, eles são um.


Também vejo a Madonna negra como “transcendendo de baixo”.


Em outras palavras, a energia feminina do próprio planeta, se você pensar nela como um vulcão em erupção de dentro das entranhas da terra, está transcendendo a existência de nossa vida normal.


Pense nas grandes ondas que vêm quebrando.


Esse poder que está em erupção de dentro e de baixo pode ser tão renovador quanto um anjo pousando de cima.


ENTREVISTADORA: Por um lado, parece completamente compreensível que, como você disse, uma adesão rígida a noções absolutas pode facilmente levar a uma relação com a vida perigosamente desencarnada, exclusiva e alienada. Mas, por outro lado, não se pode dizer com igual validade que é somente quando estamos dispostos a transcender todas as noções de opostos - incluindo as de "masculino" e "feminino" - que podemos experimentar uma perspectiva e um relacionamento com a vida que é verdadeiramente abrangente?


MARION WOODMAN: Sim, está certo.


link para a publicação original:

https://carljungdepthpsychologysite.blog/2022/04/02/the-emergence-of-the-black-goddess-an-interview-with-marion-woodman/

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