Afinal, Jung era um místico? - Luís Paulo Lopes

Atualizado: 11 de fev. de 2021

Com a publicação dos "Livros Negros" de Jung, vem ganhando corpo um antigo e espinhoso debate no campo junguiano.


(Foto: Um dos cadernos de Jung)


Recentemente, um antigo e espinhoso debate no campo junguiano vem ganhado corpo novamente devido a publicação dos "Livros Negros" de Jung. O próprio Shamdasani, responsável pela edição dos livros e fundador da Fundação Philemon, veio ao público brasileiro em um evento de lançamento realizado pela Editora Vozes, afirmar que a publicação deste material tocaria em uma ferida narcísica do campo junguiano. Trata-se justamente do debate que tenta ser evitado a todo custo, apesar de o assunto insistir em sempre retornar, como que nos obrigado a elaborar um melhor entendimento sobre ele; isto é, sobre a relação entre Jung e a tradição esotérica ocidental, assim como sobre as experiências místicas do próprio Jung. Normalmente, quando vejo alguém tocar neste assunto, é no sentido de botar um ponto final e encerrar o debate afirmando que Jung não é místico. O próprio Jung se posicionou desta forma sobre as acusações que sofria na tentativa evidente de desacreditar toda sua obra. Disse ele, em uma entrevista quando já estava em idade avançada: "todos os que dizem que sou um místico não passam de idiotas. Eles não compreendem, simplesmente, a primeira palavra de psicologia" (Jung), ou seja, psique - alma. Quer dizer, Jung, ao abordar toda e qualquer tradição religiosa, como o fez de forma bastante profunda em relação à alquimia (que integra a tradição esotérica ocidental), o faz através de uma perspectiva absolutamente psicológica. Isso significa que não aborda estes assuntos a partir da perspectiva original da própria tradição, mas como que dialoga com ela.


Assim, Jung era, sem dúvida nenhuma, um grande cientista; e, eu diria, um gênio da ciência, pois foi capaz de estruturar as bases epistemológicas de uma ciência bastante peculiar; cujo fundamento ontológico é radicalmente distinto em relação à ciência iluminista, erigida sobre o materialismo e o racionalismo. Poderíamos inclusive dizer que a ciência de Jung, que bebeu da fonte não somente do romantismo alemão, mas das tradições espirituais e, especialmente, da tradição esotérica ocidental, se constitui como crítica à ciência iluminista e, ao mesmo tempo, como uma cosmovisão alternativa. Jung nos convida a ver o mundo e a vida de uma forma absolutamente diferente do senso comum (e aqui incluo o cientificismo contemporâneo). Por isso, mais do que entender bem os conceitos isoladamente, para uma compreensão adequada da teoria junguiana é imprescindível permitir a desconstrução de alguns dos pilares da mentalidade contemporânea em nós mesmos; esta é, na minha opinião, uma consequência natural do polêmico empirismo de Jung aplicado na prática. Por isso, não é nada simples entender Jung; pois nos obriga não somente a compreender um conjunto de conceitos de forma racional, mas exige, sobretudo, a desconstrução dos pilares que fundamentam nossa própria visão de mundo, para que assim, passemos a enxergar com lentes diferentes destas que herdamos do senso comum. Portanto, afirmar que Jung é um grande cientista, absolutamente, não significa que ele se pareça com o típico cientista iluminista que imediatamente imaginamos; pois, a ciência de Jung é bastante distinta.

A biografia de Jung é cheia de experiências incomuns, "visões", sincronicidades impressionantes, sonhos premonitórios; coisas que escandalizam qualquer cientista materialista, mas que não se apresentam como um problema para a ciência de Jung. O pensamento junguiano é visto com desconfiança pelo espírito racionalista e materialista e, por isso, vem sendo acusado de bruxaria para que seja queimado no fogo da inquisição iluminista há muitos anos. E assim vai continuar, estejam certos disso. A não ser que seja tão modificado pelo pensamento pós junguiano que reste muito pouco do pensamento original de Jung; portanto, seria melhor que olhássemos com seriedade para essa questão; ao invés de recorrermos à simples solução: "Jung não é místico". E, muitas vezes, utilizar Jung para justificar a mesma cosmovisão que tenta o desacreditar há todos estes anos; como se dissesse: "veja só, Jung não é místico, mas um perfeito materialista".


Acho que não é à toa que o campo junguiano contemporâneo considere menos do que deveria as implicações do conceito de sincronicidade; pois, ao menos a mim, parece evidente que este conceito não fala somente sobre "eventos ligados por uma relação de significado", mas desafia precisamente a visão de mundo iluminista. Em minha perspectiva, é através do conceito de sincronicidade que podemos observar com mais clareza o que está no fundo da teoria junguiana - sua raiz ontológica -, e que me parece, a ideia de unus mundus dos antigos alquimistas sintetiza de forma adequada. Onde está o inconsciente? Está dentro ou está fora? A resposta a estas perguntas tem profundas implicações. Lembram-se, por exemplo, quando Jung postula que o arquétipo é de natureza psicóide e, portanto, fundamentalmente não está submetido às categorias de "dentro" ou de "fora"? Normalmente, imaginamos o inconsciente como algo dentro de nós; e isso não é à toa; o fazemos pois nossa mentalidade está naturalmente impregnada de materialismo e o modelo hidráulico do inconsciente freudiano sempre acaba permeando nosso olhar devido a sua simplicidade. Mas, por exemplo, quando se fala sobre o inconsciente retornando como destino, devemos imaginar que seja algo que venha de dentro ou de fora? Certamente, de dentro, algum apressado poderia prontamente responder. Mas, para Jung, o inconsciente está dentro e também fora, ou então não está em lugar algum. Quando digo fora, não me refiro somente ao problema da projeção, mas à sincronicidade. Ao nos debruçarmos seriamente sobre este fato, compreendemos precisamente a ideia de unus mundus dos antigos alquimistas. Curiosamente, o modo de pensar tipicamente esotérico dos alquimistas renascentistas, neste caso, concorda mais com Jung do que a cosmovisão cientificista contemporânea; e nem por isso Jung é menos científico.

Vejamos, por exemplo, o texto escrito por Jung em 1916 intitulado "os sete sermões aos mortos", assinado como Basilides de Alexandria, um importante professor gnóstico do século II d. C. Neste momento, Jung já havia rompido com Freud e estava seriamente envolvido com as experiências de imaginação ativa. Nos sermões, Jung elabora toda uma cosmologia de inspiração gnóstica através de ideias e imagens, num estilo tipicamente esotérico. Neste texto, escrito como uma síntese das experiências de Jung com o inconsciente, já se pode perceber com total clareza o que viriam a se tornar os pilares fundamentais de sua teoria, como a ideia da individuação como um processo de contínua diferenciação e do Self como uma unidade paradoxal que inclui ambos os opostos, expresso através da imagem do deus gnóstico, Abraxas.


O Livro vermelho nos trouxe novas e surpreendentes informações acerca da vida e da obra de Jung bem depois de sua morte; e mais interessante ainda é o fato de sua teoria, em grande medida, ter se originado a partir das elaborações dessas experiências interiores. A própria imaginação ativa não foi uma técnica que Jung tirou do nada. Exercícios de meditação e imaginação são extremamente comuns na tradição espiritual ocidental. Jung chega a mencionar os exercícios espirituais de Ignacio de Loyola, e os distingue em relação a sua imaginação ativa. Fato é que Jung sabia sobre técnicas espirituais presentes na literatura da tradição esotérica ocidental e de místicos europeus. Criou uma técnica própria, como o pioneiro que era; mas esta técnica, apesar de única, parte inegavelmente da tradição espiritual do Ocidente para se constituir em psicologia moderna. A imaginação ativa revela toda a peculiaridade do empirismo junguiano. Lendo o Livro vermelho, compreendemos nitidamente a relação entre as imagens da imaginação e seus conceitos psicológicos; e mais, percebemos que ele recebeu informações de uma fonte inconsciente autônoma que sabia de coisas que ele mesmo absolutamente desconhecia, mas que foram incorporadas em sua psicologia; como o próprio Jung afirmou se referindo a Philemon.


Poderíamos, portanto, dizer que a teoria junguiana foi, em sua essência, elaborada a partir da vivência de Jung com o inconsciente por um lado e, por outro, de suas observações clínicas, reflexões teóricas e amplificações com material coletivo. As experiências de Jung com o inconsciente constituem precisamente o que se costuma chamar de experiência mística; não por apelar a algum fator metafísico que as deveria explicar, mas por serem experiências "diretas" como se costuma dizer; ou experiências do inconsciente coletivo, tal como podem ser compreendidas em termos psicológicos. Jung teve várias experiências místicas (muitas das quais relatadas por ele) que foram de fundamental importância tanto para o seu próprio processo de individuação, quanto para a elaboração de sua teoria psicológica. Ele percebeu o enorme valor destas experiências para o campo da psicoterapia e, quando passou a utilizar a técnica da imaginação ativa no consultório, na prática, emancipou a experiência mística do próprio misticismo.

(Foto: O Livro Vermelho)


Não seria correto afirmar que Jung era um místico, mesmo que ele tenha se debruçado profundamente sobre o mistério (mistikós) do que chamou inconsciente. Jung trazia um ferrenho espírito científico e, talvez, pudéssemos até afirmar que este era um atributo do daimon que lhe obrigou a construir uma obra tão monumental. Foi um grande cientista que criou uma ciência sui generis, bastante diferente da ciência iluminista; ao ponto de ter recebido o apelido de "Dr. Jung, feiticeiro de Zurique". Mesmo não sendo um místico, mas um cientista distinto, sua ciência foi erigida sobre as águas da experiência mística; isto é, a experiência do mistério vivido a partir, tanto do silêncio interior, pela imaginação ativa, quanto do espanto exterior da sincronicidade. Em minha concepção, Jung também não pode ser considerado um autor esotérico, pois sua perspectiva estritamente psicológica desconsidera, por definição, qualquer aspecto metafísico quando aborda questões como "alma" e "espírito", por exemplo. Apesar disso, é preciso admitir que o esoterismo ocidental teve uma influência decisiva sobre a vida e a obra de Jung; e isso, bem mais do que geralmente se gostaria de reconhecer.


É inegável que Jung estivesse mergulhado até o pescoço por literatura esotérica; como pode ser visto sem nenhuma dificuldade pelos autores citados por ele, dentre místicos, gnósticos hereges e alquimistas. Inegável também é o fato de esta literatura ter servido como material para a elaboração não só da cosmovisão pessoal de Jung, mas também de sua teoria, como os textos "proibidos", publicados após sua morte, demonstram claramente. É surpreendente o fato de Jung concordar com as imagens da antiga alquimia no ponto mais importante, em minha opinião, de sua teoria: o processo de individuação. Ao ponto de Jung considerar as transformações da prima matéria alquímica em analogia às imagens que surgem no indivíduo ao longo do processo arquetípico descrito como individuação.


O conceito de individuação é um ótimo exemplo para pensarmos a relação entre Jung e a tradição esotérica ocidental. Seu desenvolvimento se inicia num momento em que Jung estava mergulhado em experiências místicas e sob declaradas influências gnósticas; inicialmente nos "Sete sermões aos mortos", com o principium individuationis, passa depois por uma elaboração teórica (como se encontra principalmente nos volumes VII e VIII das obras completas) e finaliza retornando às imagens da tradição esotérica ocidental (respeitando os devidos limites epistemológicos) através dos paralelos com as obras dos antigos alquimistas. Estes últimos escritos, diga-se de passagem, de longe trazem os insights mais profundos e interessantes de Jung sobre o assunto.

Penso, portanto, que em tempos de Livros Negros devemos olhar para a relação entre Jung e a tradição esotérica ocidental de forma honesta e na tentativa sincera de compreender, considerando os elementos que dispomos. A mim, toda esta história deveria instigar curiosidade naqueles imbuídos de verdadeiro espírito científico; sobre o motivo pelo qual Jung teria empenhado tanta dedicação no estudo/mergulho da tradição espiritual do Ocidente, ao invés de repulsa, na tentativa de construir a imagem de um Jung acadêmico, acima de qualquer suspeita para a mentalidade contemporânea. Jung sempre será suspeito para o pensamento iluminista, apesar de ser um cientista. Não são os esotéricos que mancham a reputação de Jung; ele mesmo fez isso sem precisar de ajuda quando ousou discordar das ideias fundamentais (evidentemente filosóficas e não científicas, diga-se de passagem) que estruturam a cosmovisão iluminista. Precisamos nos acostumar com isso; e também com o fato de que, apesar da psicologia de Jung não poder ser acusada de misticismo, ainda assim, foi erigida, dentre outros fatores, sobre a experiência mística. É também profundamente devedora da tradição esotérica ocidental, e nunca agradou (e nem deveria) a mentalidade cientificista contemporânea.

Luís Paulo Lopes

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