Mago ou Charlatão: Questão de prestígio - Débora Vieira

"A imaginação é positivamente aparentada com o infinito".

(Charles Baudelaire)


"A realidade é meramente uma ilusão, apesar de ser uma ilusão muito persistente"

(Albert Einstein)


"Mágica de verdade não se explica. Se mágica fosse passível de explicação não seria mágica mas ciência – ou truque. No entanto, não se trata nem de uma coisa nem outra".

(O mágico de verdade, de Gustavo Bernardo Krause)



Começo a falar sobre o Arcano I trazendo um pouco da minha história pessoal. Ele me foi apresentado num sonho simples e claro, antes de eu imaginar do que se tratava. No sonho, meu pai (já falecido àquela época) me entregava uma carta de baralho cuja imagem eu não via. E me dizia muito claramente: “Filha, essa é a SUA carta, a carta do Mago”. Fim do sonho. Como meu pai tinha mesmo o hábito da jogatina, fazia sentido que eu o visse com uma carta de baralho nas mãos. Mas que Mago? Contei o sonho no dia seguinte à minha irmã mais velha. E ela me disse achar que era o nome de uma carta de Tarô, e que meu pai teve um quando ela era ainda pequena. A carta preferida do meu pai, contou ela, era a do Eremita. Curiosamente, eu lembrava mesmo de já ter ouvido falar de uma carta chamada Eremita, mas realmente nunca tinha me atentado para a existência de uma carta chamada Mago. Com ajuda da Internet discada da época, fui pesquisar sobre a tal fatia de Tarô com que havia sonhado... e aprendi que ela tinha relação com o número 1, com os inícios, com o símbolo do infinito, com a letra Aleph, com o masculino, com a dicotomia entre realidade e imaginação... enfim, com uma série de temas pelos quais eu já era fascinada, mesmo sem aprofundamentos. Então, estava feito: O Mago era a minha carta. E eu me descobria destinada a me iniciar mais conscientemente nos estudos do mundo simbólico pelas mãos dele. Um mistério do meu mundo onírico transformando minhas buscas e vontades de forma bem prática e consciente no mundo objetivo.


Se você, leitor, tiver motivos para acreditar em mim, esse meu relato introdutório contou uma experiência da ordem da magia; Se tiver motivos para duvidar, o relato foi meramente um truque para colorir a sua imaginação num tom místico compatível com assuntos oraculares; Se o leitor tiver motivos para racionalizar os dados, o trecho é sobre uma experiência perfeitamente explicável mas que eu, por motivos variados, afirmei ser da ordem do mistério. As possibilidades de recepção ao parágrafo anterior são, portanto, variadas. O que vai determinar o modo de recepcioná-lo depende de onde minha plateia deposita o seu prestígio.


Prestígio é questão de crença. Quanto mais prestígio uma pessoa ou instituição detiver, maior o seu crédito e poder de persuasão no palco da realidade, mesmo que isso signifique manipular um público cativo com todo tipo de sortilégios. Não é difícil trazer da memória figuras no mundo da Política, Religião, Negócios e Publicidade que ignoram os limites éticos das crenças que habilmente difundem.


Estão aí colocados alguns dos principais temas engendrados pelo Arcano I: imaginação, realidade, magia, mágica, truque, ilusão, crença, descrença, inícios, limites e deslimites.

(Imagem: O ilusionista, de Hieronymus)


Voltando à palavra prestígio. No uso corrente, ela remete a influência, carisma, reputação, confiabilidade, crédito. Seu sentido mais antigo, porém, aponta para a arte do engano e da ilusão – habilidade necessária aos mágicos. Não à toa, esse tipo de artista é também chamado prestidigitador; aquele que domina a arte do prestígio nos dedos, nas mãos. Mãos tão hábeis que desafiam e suspendem as crenças daquilo que entendemos como possível ou real.


A Magia vem perdendo seu prestígio desde a Idade Moderna, marcada pelo movimento renascentista e o crescente desenvolvimento do racionalismo científico, que teve na Reforma Protestante um de seus pontos-chave. É instaurado um clima de cisão, e a caça às bruxas ganha contornos ainda mais paranoicos; É definido um inimigo, o chamado pensamento mágico, riscando uma zona de oposição com o chamado espírito científico. Já no final do século XVIII, Max Weber caracterizou esse processo, conceituando-o como desencantamento do mundo. O mundo desencantado é o mundo que perdeu a confiança no poder do mago, o mundo desmagificado. A enevoada magia perde seu prestígio para a luminosidade da ciência, que passa a ter o maior crédito para interpretar a realidade a partir de preceitos racionalistas. Aos poucos, o mago passa a ser sinonimizado com o mágico, isto é, aquele que manipula o espectador por meio de truques, ilusões, charlatanices. Não mais um sábio operário da matéria a serviço do oculto. Em vez disso, um artista de palco e de circo, a serviço do entretenimento.


Por falar em entretenimento, a lâmina do Arcano I no Tarô de Marselha é chamada Le Bateleur, título que pode ser traduzido como O Malabarista, ou O Saltimbanco. A imagem mostra um homem de pé e aparentemente jovem, sem barba, com enorme chapéu. Entre ele e nós, seus espectadores, há uma mesa onde repousam alguns objetos cênicos, como copos e uma faca fora da bainha. Dependendo do padrão imagético da prensa, ele segura na mão esquerda um cilindro ou bastão ligeiramente para o alto, e na direita uma moeda ou objeto ovalado ligeiramente para baixo. O olhar dele nunca é para a mesa nem para sua plateia (nós), mas para o lado direito da cena, como se ele visse algo que nós não conseguimos acessar. Essa aparente dispersão de seu olhar pode sugerir descaso, mas também grande habilidade. Le Bateleur seria capaz de manipular os objetos de seu show com tanta naturalidade que nem precisa conferir o que está fazendo. Ele está sob o transe rítmico de uma coreografia habilmente internalizada e sofisticadamente apresentada para os que o observam. Deixa-se conduzir ao mesmo tempo em que age. Feminino e Masculino em equilíbrio. A ilusão de facilidade é uma conquista típica dos bailarinos, malabaristas, atores, músicos... ao preço de muito ensaio, muito sacrifício, e muito trabalho invisível por trás das luzes do palco. Será que seu olhar se volta para uma das coxias do grande teatro? Os aplausos que ele virá a receber darão uma amostra do seu prestígio.


No Tarô de Rider Waite Smith, o Arcano I é ilustrado também como um homem jovem, sem barba, de pé, atrás de uma mesa (que não se revela por inteira) onde repousam quatro objetos, dessa vez visualmente bem definidos. Em vez de chapéu, ele tem uma faixa na testa e uma lemniscata sobre a cabeça. Ele também segura um objeto fálico que aponta para o alto, dessa vez na mão direita, e lembra uma vela queimando nas duas pontas. Sua mão esquerda é vazia, apontando para o chão. Rosas vermelhas e lírios brancos se espalham pela imagem, de modo mais ordenado em cima e mais caótico em baixo. Suas roupas são nas mesmas cores das flores, e há um cinto de uroboros o envolvendo pela metade, em sua cintura. O olhar dele é fixo no nosso, sugerindo sedução e desafio. Seu título agora é The Magician. Ora, mas um magician não é um wizard. Este segundo guarda relação com wise (sábio) e se aproxima da nossa ideia de bruxo – personagem desacreditado e perseguido, que praticamente só sobreviveu sob o disfarce folclórico ou ficcional. Já magician se deriva do mesmo ponto de onde vieram imagem e imaginação. Se mágica, imagem e imaginação têm afinidade, poderíamos meditar: O mundo das imagens é mágico? Imagens operam milagres e subvertem a realidade? O que é realidade, se não um amontoado de imagens? Por que diferenciar realidade de imaginação? Se o que está acima é como o que está em baixo, o que está fora não seria como o que está dentro? Essa cisão seria a ilusão em si, e a integração em unidade seria a Verdade?


Os temas da cisão e da integração são caros para os que estudam a obra de Carl Gustav Jung. A dissociação entre consciente e inconsciente, operada pelo Ego, é um dos traços definidores das neuroses. Já nas psicoses, é a estrutura egóica que rachou e não consegue mais dar conta das imagens transpessoais, que passam a vazar e ofuscar aquela individualidade. Na organização da Psique, podemos imaginar o Ego ora como um grande ilusionista, ora como um aprendiz de feiticeiro incapaz de controlar a magia que escapa desordenada do caldeirão do inconsciente. Inflado, superestima seu papel na obra, transforma epopeia em monólogo, e vive em descompasso com o ritmo cantado pelo coro. Desestruturado, não sustenta a varinha mágica que o protege nessa tarefa de mediar os mundos da luz e do mistério, correndo o risco de se desintegrar com eventuais choques mais intensos entre esses dois planos. Tal como nosso Mago, o Ego é quem confere unidade e inicia o indivíduo diante dos objetos e da plateia, todos dispostos à luz da consciência.


Cabe a esse artista aprender a diferenciar, escolher, combinar e usar seus múltiplos recursos e funções psíquicas em atos de vontade que vão além da sua. Cabe também a ele lidar com o Outro, que lhe ensinará não só sobre aplausos, como também sobre vaias. É através do nosso Mago que o mistério da obra se revela, para realizar os milagres de uma única coisa. Por mais ilusões ou imposturas que ele também possa manifestar, há que se prestigiá-lo. Sonho e realidade são as faces de uma mesma moeda. É verdade, certo e muito verdadeiro.


Débora Vieira é arteterapeuta, graduada em letras, especialista em literatura infantil e juvenil; sendo também taróloga e facilitadora de SoulColage®.


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