Jung sobre a Imaginação Ativa: Seminário sobre Yoga e Meditação

Atualizado: 2 de out.

Esta palestra é a primeira de uma série. O conjunto completo está reunido no Seminário sobre Psicologia da Yoga e Meditação (Psychology of Yoga and Meditation Lectures), conferidas em Zurique entre 1938 e 1940, cuja tradução para o inglês saiu em 2020. No início do Seminário, Jung apresenta a técnica da imaginação ativa de modo bastante direto, o que é raríssimo; pois é sabido que ele evitou falar de forma muito aberta sobre a imaginação ativa devido a dificuldade em abordar tal assunto para um público unicamente intelectual, isto é, alheio a realidade da alma.


Em uma carta, Jung escreve:


"É verdade que não se escreveu muita coisa sobre o assunto [imaginação ativa]. A maior parte está nos meus seminários. É um assunto muito difícil de ser tratado diante de um público apenas intelectual" [Carta de Jung ao Senhor O. de 02/05/1947].


Esta dificuldade fez com que Jung optasse por abordar a imaginação ativa preferencialmente em seus seminários ao invés de seus livros, pois estava entre um círculo de pessoas mais próximas; muitas das quais conheciam a técnica através da vivência direta. Nas Obras Completas, há textos que se remetem de forma evidente à imaginação ativa como "A função transcendente" (CW 8), escrito em 1916 (período do "confronto com o inconsciente" de Jung), porém guardado em uma gaveta e encontrado somente nos anos 50; assim como "A técnica de diferenciação entre o eu e as figuras do inconsciente" (CW 7), que aborda a possibilidade de "entrar na fantasia" como método de diferenciação em relação às figuras do inconsciente. Porém, estranhamente, em nenhum dos dois textos é mencionado o termo "imaginação ativa" e, especificamente no segundo, Jung é tremendamente evasivo a respeito de detalhes técnicos. Está claro que esta dificuldade enfrentada por Jung fez com que o aspecto mais profundo e importante de seu método fosse desvalorizado nas décadas posteriores. O que era de se esperar, pois somou-se a falta de escritos do próprio Jung sobre o assunto ao total desconhecimento do homem moderno, especialmente o ocidental, a respeito da alma (num sentido direto e vivencial, e não exclusivamente intelectual).


Para Jung, porém, a imaginação ativa é a peça central de seu método, segundo o qual não é possível estabelecer a unidade entre a consciência e o inconsciente; constituindo "a segunda parte indispensável de qualquer análise que deseja ir realmente a fundo" [Jung em carta de 02/05/1947]. Assim, torna-se necessário resgatar a imaginação ativa no cenário junguiano contemporâneo; em um esforço de reconstruir a totalidade do método criado por Jung. Podemos ir um pouco mais além e afirmar que a imaginação ativa é também uma chave hermenêutica para a compreensão profunda da própria obra de Jung. Pois, como sabemos, os conceitos centrais de psicologia junguiana, como Sombra, Persona, Anima/Animus e Self referem-se a certos fatos interiores vivenciados inicialmente por Jung como experiências simbólicas introspectivas, e somente posteriormente elaborados intelectualmente na forma de conceitos psicológicos. Assim, a prática da imaginação ativa conduz à percepção direta destes fatos, o que torna possível a compreensão dos conceitos; já que estes últimos fazem apenas alusão indireta aos fatos através do intelecto, o que dá enorme margem pra mal entendido caso os fatos não sejam conhecidos diretamente.


Nesta palestra, Jung discute a imaginação ativa tanto num sentido teórico quanto técnico. Nas palestras seguintes do Seminário [não traduzidas aqui], tece comentários sobre a utilização da meditação como método para ampliação da consciência na tradição do Oriente (Yoga e Budismo) e depois relaciona a perspectiva oriental com a ocidental (Alquimia e Meister Eckhart). Ao longo de todo o Seminário, Jung aborda a importância da utilização de técnicas meditativas e contemplativas, diferenciando as orientais das ocidentais, com o propósito de produzir a síntese da personalidade, ou totalidade.


Em tradução livre por Lampeju

(Laboratório de Ampliação da Personalidade e Estudos Junguianos)

Tradutor: Luís Paulo Lopes

Revisora: Gabriela Junges



Preleção 1 [99]

28 de Outubro de 1938


NOS SEMESTRES ANTERIORES, falei bastante sobre os sonhos e tentei delinear como os sonhos são estruturados e como podemos chegar ao seu significado. Agora neste semestre, vou adiante, descrevendo o fenômeno da “imaginação ativa''.


Vocês vão se lembrar do sonho do concerto onde, no final, uma coisa brilhante emergiu da árvore de Natal. [100] Em particular, eu disse isso:


Esta coisa brilhante não é um objeto comum, mas sim um símbolo que remonta à história intelectual da humanidade. Isso é um exemplo de como os conteúdos do inconsciente coletivo se impõem sobre a consciência até que se tornem conscientes. Se fosse tratado de forma antropomorfizada, poderia ser dito que é como se esses conteúdos do inconsciente coletivo tivessem uma certa vontade própria para se tornarem manifestos. No entanto, esta é apenas uma hipótese, e peço-lhes para que não tomem isso literalmente. De qualquer forma, esses conteúdos aparecem primeiro nos sonhos. Estes são fenômenos que ocorrem no limiar da consciência, e se referem a conteúdos que emergem na consciência. Fiquei impressionado com esse fato desde cedo. Podemos ver este fenômeno com extrema frequência em nossos pacientes, assim como em casos de doença mental. Perguntei a mim mesmo se não seria possível causar algum impacto sobre esse pano de fundo de onde o inconsciente aparece, para que seus conteúdos fossem entregues mais claramente, ou se seria possível tornar esses vestígios do inconsciente mais claros para que pudéssemos discerni-los e compreendê-los melhor.


Descobri que se alguém mantém a atenção sobre esses vestígios [imagens] e se concentra neles, um curioso fenômeno de movimento acontece, exatamente como quando se olha para um ponto escuro por um longo tempo, e ele então começa a se animar. De repente, somos capazes de discernir as formas do nosso próprio fundo interior. “Olhar para o copo ou tigela de água” abre para o fundo da própria alma, na medida em que se percebe as imagens – embora, é claro, não na água. [101] Esta é uma técnica utilizada pelos antigos sacerdotes egípcios, por exemplo, que olhavam para uma tigela de água. Não há nada presente na água, mas o olhar intenso desperta a alma para ver algo. Isso tem um efeito hipnótico e fascinante. Para isso, os magos da antiguidade usavam um botão de vidro ou uma joia, ou os sacerdotes egípcios um belo cristal azul, para transmitir percepções do inconsciente à sua clientela. Isso não era entendido dessa maneira naquela época, mas era empregado para fins de profecia, adivinhação e cura. Os antigos sabiam muito bem que para curar a alma, ou mesmo o corpo, um certo auxílio de experiências psíquicas era necessário.


Encontramos ideias semelhantes no antigo culto de Asclépio. [102] É por isso que as clínicas médicas da antiguidade tinham câmaras de incubação nas quais os antigos tinham um sonho que oferecia o diagnóstico correto, ou muitas vezes até indicava o caminho correto para a cura. [103] Práticas semelhantes ainda são usadas hoje por indianos e por curandeiros de tribos primitivas. Se alguém está perturbado por um sonho maligno, o curandeiro faz com que ele passe por esse processo para trazê-lo de volta à harmonia com seu próprio pano de fundo psíquico. Pois é sabido que alguém que não tem mais essa conexão perdeu sua alma. A perda da alma é típica dos primitivos. É absolutamente imperativo que a alma seja recapturada. Isso pode ser alcançado restaurando a conexão com o inconsciente, capturando o substrato psíquico. Com as crianças, por exemplo, as imagens às vezes até começam a ganhar vida: a locomotiva começa a se mover ou as pessoas no livro ilustrado começam a fazer alguma coisa. Acredita-se que sejam apenas experiências infantis, mas alguns primitivos têm muito mais experiência com o pano de fundo [inconsciente] do que nós que vivemos orientados para o mundo externo. Devemos saber isso. Vivemos através dos nossos olhos. No entanto, isso não é característico de todos os povos, mas simplesmente uma peculiaridade do Ocidente.


Se nos concentramos em tal fragmento [de fantasia], é necessário reter claramente a percepção inicial dele na alma. É aqui que o ocidental tende a inibir o despertar da fantasia. Ele pode desligar algo do ambiente, ou seja, ele se apega tanto a um e mesmo ponto de vista que nada o perturba. Essa diferenciação é característica dos ocidentais, mas não dos orientais. É quase impossível obter informações precisas deles. Eles não têm meditação em uma área específica. Se eu me curvar sobre uma determinada folha de grama e perguntar o que significa, a pessoa oriental me dará todo o prado. Para eles, essa é uma tarefa exigente que os desgasta. Isso também me impressionou em relação às pessoas espiritualmente significativas da Índia ou da China. Eles não conseguem se concentrar exclusivamente em um pequeno detalhe.


Mas a imaginação ativa não implica uma concentração tão focada, que mata tudo o que acontece em volta. Deve ser possível que, enquanto a imagem permanece focada na mente, a fantasia inconsciente também possa participar. Se isso puder ser feito, então algo começará a acontecer. Se observarmos com a atenção mais relaxada possível, podemos perceber que algum outro material entra e anima a situação. Se praticarmos isso, podemos permitir que um sistema inteiro se desdobre a partir de qualquer ponto de partida [fragmento de fantasia]. Ao fazer isso, sempre se pensa que se está fazendo sozinho, que se está inventando, mas na realidade são pensamentos espontâneos. Não se pode dizer que tais imagens foram criadas por conta própria. Se uma telha cair na sua cabeça, não foi você que fez isso acontecer. Estas são “percepções que surgem livremente” como Herbart [104] já observou. Se desistirmos de nossas expectativas e apenas contemplarmos aquilo que emerge, então percebemos o que o inconsciente está criando a partir de sua própria perspectiva. Desta forma, uma imagem é estimulada. Quando isso acontece, pode-se obter um vislumbre do inconsciente. As pessoas muitas vezes sonham de maneira bastante fragmentada, ou o sonho se interrompe em algum lugar - então peço ao sonhador que o imagine mais adiante. Eu meio que peço a continuação. Em princípio, isso nada mais é do que a técnica usual de criar o contexto do sonho. Eu obtenho toda a textura na qual o sonho está inserido. Como aparece ao sonhador. Existem algumas ideias simples: acreditamos que a água é igual para todos, mas não é bem assim. Se perguntássemos para doze pessoas o que elas associam à água, ficaríamos surpresos com o que elas responderiam. Assim, se, em vez de perguntar por todo o tecido do sonho, eu perguntasse como seria a continuidade do sonho, obteria como resposta um material correlacionado exatamente com o significado do sonho. Pode-se também sabotar tal busca. Já me trouxeram sonhos tirados do dicionário, tentando me convencer. Infelizmente para eles, eu percebi.


A imaginação ativa é uma tomada de consciência a respeito das percepções de fantasia que estão se manifestando no limiar da consciência. Devemos ter em mente que nossas percepções possuem uma certa energia através da qual podem se tornar conscientes. Por esta razão, ficamos exaustos após um período relativamente longo de consciência. Então devemos dormir e nos recuperar. Se forem feitas perguntas bastante simples aos primitivos, depois de um tempo eles também ficam exaustos e querem dormir. Se você deixá-los sozinhos, eles não pensam em nada, ficam sentados, não dormem, mas também não pensam. Algo está acontecendo, porém não está na cabeça, e é bastante inconsciente. Alguns sentem-se insultados se você perguntar o que eles estão pensando. “Só os loucos ouvem algo lá em cima na cabeça”, não eles. Você percebe a partir de qual noite nossa consciência de fato despertou.


Existem quatro estados diferentes de conteúdos psíquicos:


- Consciência / Percepções conscientes.


- Percepção de limiar / Conteúdos no limiar da consciência, abaixo, onde reina a escuridão (percepções de fundo).


- Inconsciente pessoal / Conteúdos desconhecidos ou esquecidos que, no entanto, pertencem ao domínio pessoal.


- Inconsciente coletivo / Pensamentos que já foram pensados ​​em outras épocas. O mais interessante são esses conteúdos mais profundos que não são adquiridos individualmente, mas podem ser pensados ​​como padrões instintivos fundamentais e, portanto, como um tipo de categoria.


Cada uma dessas camadas, mesmo a superior, é influenciada e modificada caso surja algum conteúdo do inconsciente coletivo. Se o processo de tornar-se consciente segue um curso natural, não convulsivo, então toda a vida prossegue de acordo com o padrão básico do inconsciente coletivo, naturalmente sombreado individualmente, embora os motivos individuais se repitam em todos. Assim, encontramos os motivos do inconsciente coletivo no folclore de todos os povos e em todos os tempos, na mitologia, nas religiões, etc.


Qualquer concentração da atenção nesta técnica é muito difícil. Isso é algo que só pode ser alcançado através da prática. A grande maioria das pessoas se perde imediatamente em cadeias de associações, ou as inibe e então absolutamente nada acontece. O homem ocidental não é educado para usar essa técnica, mas sim para observar todas as percepções sensoriais externas e seus próprios pensamentos, por isso, não é anfitrião da percepção dos processos de fundo. O Oriente está muito à nossa frente neste aspecto. Esta é uma meditação, ou seja, uma impregnação do pano de fundo, que se torna animada, frutificada pela nossa atenção. Por este meio, conteúdos ainda em desenvolvimento emergem claramente. A palavra latina contemplatio vem de templum [105] — se define como uma zona de encontro vivo, um campo de visão específico no qual ocorre a observação. Os adivinhos costumavam delinear um campo, um templum para observar o vôo dos pássaros. Um domínio protegido a partir de onde se pode observar os conteúdos internos e fertilizá-los com a atenção. E a palavra meditatio realmente significa considerar ou ponderar.


Na antiguidade, até onde eu sei, não havia descrições ou instruções detalhadas para esta técnica. Na verdade, isso contradiz o espírito clássico. Em contraste, na Idade Média já estavam surgindo certas ideias. Os antigos alquimistas — os quais vocês não devem de forma alguma imaginar como velhos loucos fabricantes de ouro, mas sim como filósofos naturais — definiram o termo meditação como um diálogo com um outro que é invisível. Este outro pode ser Deus ou o próprio alquimista em outra forma de manifestação, ou o espírito bom, o espírito guardião da pessoa com quem é possível dialogar durante a meditação. São Vitor [106] teve essa conversa com sua própria alma. Na Idade Média, portanto, já havia a contraparte interna em contraste com a contraparte externa; e essa contraparte interna possui um significado por direito próprio, de modo que se pode, em certo sentido, ter uma conversa com esse outro. Então, em síntese: esse outro interno responde. Esse procedimento é chamado de imaginação. Não apenas me entrego à fantasia, mas também concentro minha atenção no que deve ser contemplado e observo o que acontece no processo.


Na Idade Média, os filósofos usavam esse termo para descrever a possível transformação dos elementos. Eles podem ser transformados através da meditação. Concentrando-se na matéria química, a imagem que está dentro de nós é impressa na matéria. Esta imagem dentro de nós é a alma, e é redonda. Perfeição da redondeza, pois o ouro tem forma redonda porque é um corpo perfeito. Pode-se projetar a imagem de sua própria alma, e então ela deve ser transformada em ouro. Pensa-se que o objetivo final é o ouro. Na verdade, porém, ensina-se que não é o ouro normal, mas o ouro da alma. É difícil entender essas linhas de pensamento, porque as coisas não eram compreendidas no sentido que hoje entendemos, mas aconteciam na matéria, portanto, na matéria que era manipulada. É como se o inconsciente estivesse localizado na matéria química, nos minerais.


Mas não devemos nos esquecer que a constituição química dos corpos era um grande quebra-cabeça na Idade Média, um grande quebra-cabeça sombrio. Não havia conhecimento sobre essas coisas, portanto, o mundo interior dos alquimistas foi compreensivelmente projetado sobre a matéria. O mesmo é verdade para nós. Se não entendemos alguém, atribuímos a ele todo tipo de qualidades, e presumimos muitas coisas sobre ele, quando na verdade trata-se precisamente do que está dentro de nós. Não podemos dizer nada sobre ele, exceto o que vemos através de nossas próprias lentes, e nós, humanos, fazemos isso totalmente sem pudor. Tentamos nos aproximar dos conceitos, mas mistificamos nosso próprio mistério na matéria. O mesmo aconteceu na Idade Média. Gradualmente as pessoas tornaram-se um pouco mais conscientes, mas não o suficiente. Então veio a era científica e interrompeu todo esse desenvolvimento. Não é assim no Oriente. Ali foi possível que essas ideias e esforços, presentes desde tempos imemoriais, se desenvolvessem de forma análoga: não foram interrompidos pela concentração exclusiva nas coisas externas. Muito cedo, encontramos nos textos indianos o conceito de tapas, ou seja, calor, brilho. [107] É usado como uma expressão para representar a influência frutífera da atenção, por isso é traduzido como “calor criativo”. No Rigveda é dito: tapas é visto entre as coisas que carregam a terra. [108] A terra é transportada através da verdade, tamanho, força, ou seja, a lei da ação correta, tapas, brahman e sacrifício. Essa ideia é quase imutável em sua forma.


Um hino do Rigeda diz: [109]


O que estava escondido na concha,

Nasceu através do poder de tormentos de fogo.

Deste primeiro surgiu o amor,

Como o Germe do conhecimento,

O sábio encontrou as raízes da existência na não-existência,

Investigando o impulso do coração.


Goethe disse o mesmo:


Você segue uma trilha falsa;

Não pense que não somos sérios;

Este não é o centro da natureza

No coração dos homens? [110]


Esses versos do Rigveda propõem que a existência do mundo é de fato uma função psíquica. Eles nos fazem entender que essas qualidades humanas geram calor constantemente e que esse brilho gera o mundo. Para o nosso modo de pensar, o mundo não é gerado dessa maneira, mas para o indiano é isso que o mundo é: a saber, a consciência. Por isso, o indiano também pode dizer: as figuras criadas internamente são o mundo, uma ilusão — e nesse sentido o conceito de mâyâ convida a uma compreensão semelhante. Outra passagem onde o conceito de tapas desempenha um papel está presente no mito do criador do mundo, Prajâpati. No começo, ele estava sozinho. Além dele não havia nada:


Pragâpati teve o desejo de criar seres e se multiplicar. Ele submeteu-se (consequentemente) a austeridades. Tendo terminado elas, ele criou esses mundos, a saber, terra, ar e céu. Ele os aqueceu (com o brilho de sua mente, seguindo um curso de austeridades); três luzes foram criadas: Agni da terra, Vayu do ar e Aditya do céu. Ele os aqueceu novamente, em consequência disso, os três Vedas foram criados. [111]


Isso significa “ele se aqueceu com seu próprio calor”, [112] em commutatio. [113] “Ele meditou, ele chocou.” [114] Ele incuba a si mesmo. Esta é a palavra usada para as técnicas de concentração a partir de onde o yoga se desenvolveu.


A semelhança entre esta técnica, que usamos de forma psicológica, e o Yoga Oriental não deve ser menosprezada. A técnica ocidental é uma coisa lamentável em comparação com o que o Oriente tem a dizer sobre ela. Em todo caso, existe uma certa diferença principal, não apenas porque o Oriente se supera com uma rica literatura e uma excepcional diferenciação de métodos. O Yoga como é praticado hoje, e tem sido praticado por muitas centenas de anos, é um sistema. A técnica ocidental não é um sistema, mas um processo simples. No Oriente, é um sistema técnico. Via de regra, o objeto de reavaliação ou meditação é prescrito, o que não acontece na imaginação ativa, onde ele surge naturalmente de um sonho, de insinuações que se manifestam na consciência de maneira natural. No Oriente, o guru, isto é, o líder, dá ao tschela, isto é, o estudante, uma instrução particular a respeito do objeto sobre o qual ele deve meditar. Guru e estudante não são peculiaridades estranhas. Cada pessoa moderadamente educada no Oriente tem seu guru que o instrui nesta técnica. Tem sido assim desde os tempos antigos, uma forma de educação praticada por alguém cujas qualificações como líder não são endossadas por nenhuma universidade.


Este é o ensinamento do yoga em linhas gerais. O texto clássico que oferece uma visão geral do ensino do yoga é uma obra do século II aC: o Yoga Sûtra do gramático Patañjali. [115] É um livro excepcionalmente profundo contendo uma plenitude de ideias profundas, incrivelmente difícil de traduzir porque apresenta os segredos do yoga em uma linguagem excepcionalmente concisa: quatro textos para um total de 195 princípios.


O objetivo da prática é a promoção do samadhi, ou seja, arrebatamento, êxtase, contemplação, também supressão. Hauer também o traduz como envolvimento em contraste com desdobramento. [116] Pode-se também traduzir como introversão. A prática do yoga pretende uma diminuição dos kleshas. [117] Por este termo entende-se elementos instintivos no inconsciente que na verdade deveriam ser reprimidos ou pelo menos diminuídos. O objetivo do yoga é conquistar esses impulsos inconscientes, daí o yoga, ou seja, o jugo; o jugo dos poderes incontroláveis ​​da alma humana; e de uma maneira diferente de como o fazemos. Nós simplesmente suprimimos ou reprimimos certas emoções. A diferença é esta: quando eles reprimem, eles sabem que estão fazendo isso. Se reprimirmos, o conteúdo desaparece, mas então, sintomas neuróticos se desenvolvem a partir dessa repressão. Somente se desvia a atenção de algo desagradável. Este é um mecanismo histérico que ocorre não apenas na vida do indivíduo, mas em todos os lugares, mesmo na política. O Yoga Sûtra diz: egoísmo, ignorância, apego, aversão e medo da morte nos enfraquece. [118] A ignorância (ávidyâ) é a base para todos os outros vícios ou kleshas.


NOTAS


[99] O texto é compilado a partir de notas de LSM e RS, bem como da tradução em inglês de BH. ES estava ausente desta primeira palestra porque perdeu o trem para Zurique.


[100] Jung está se referindo à palestra de 8 de julho de 1938. Ver Jung (1937/38).


[101] Jung se conecta aqui com estudos psicológicos anteriores sobre este assunto por Pierre Janet (1898), pp. 407-422, e Frederic W.H. Myers (1892).


[102] Asklêpios, Asclepius, deus grego (como Lat. Esculápio) e romano da medicina e da cura, filho de Apolo e Coronis, criado pelo centauro Quíron, que lhe ensinou a arte da cura. Seu culto foi particularmente forte no século III aC. Na chamada Asklepia, os sacerdotes curavam os doentes usando um método chamado incubação. Asklêpios era adorado em toda a Grécia, sendo o santuário mais famoso em Epidauro. Seu símbolo, um cajado entrelaçado por uma serpente, há muito representa a profissão da medicina.


[103] O primeiro volume da série de publicações do instituto C.G. Jung em Zurique foi C.A., a monografia de Meier on Ancient Incubation and Modern Psychotherapy (Meier, 1949), reeditada como Healing Dream and Ritual: Ancient Incubation and Modern Psychotherapy (Daimon, 1989).


[104] Johann Friedrich Herbart (1776-1841), filósofo, psicólogo e educador alemão, cuja pedagogia científica estabeleceu o padrão do sistema educacional do século XIX (“herbartianismo”). Sua psicologia “dinâmica” baseia-se no conceito de uma mecânica de Vorstellungen (ideias, representações) interativas. Herbart introduziu um modelo de um limiar de consciência a partir do qual as ideias inconscientes, uma vez que tenham atingido uma certa força, passarão para a mente consciente. As obras de Herbart incluem Lehrbuch zur Psychologie (1816), Psychologie als Wissenschaft (1824/25) e Psychologische Untersuchungen (1839/40). Para Jung sobre Herbart, ver Jung (1933/34), p. 29; e Jung (1946), § 350.


[105] Templum, lat. para um templo, santuário ou lugar sagrado; também uma área aberta, especialmente para profecias.


[106] Hugo de São Victor (1096-1141), filósofo medieval e escritor místico, lançou as bases para a teologia escolástica, tornando-se o chefe da escola de São Victor em 1133. Ele combinou seus escritos filosóficos e teológicos, de caráter aristotélico, com místicos ensinamentos sobre a jornada da alma para a união com Deus. Segundo Hugo, a alma racional contém “três olhos”: o pensamento procura Deus no mundo material, a meditação o faz dentro de nós e a contemplação conecta a alma a Deus intuitivamente. Sua obra principal é intitulada De Sacramentis Christianae Fidei (c. 1134); seus escritos místicos incluem De Arca Noe Morali [arca moral de Noé] e De Arca Noe Mystica [arca mística de Noé] (1125-1130), De Vanitate Mundi [Sobre a vaidade do mundo] e Soliloquium de Arrha Animae [O solilóquio sobre o dinheiro sério da alma]. As obras de Hugo foram publicadas como os volumes 175-177 da Patrologia Latina (1854). Sobre sua psicologia, ver Ostler (1906). Barbara Hannah escreveu um artigo sobre a conversa de Hugo com sua alma em Soliloquium de Arrha Animae (Hannah, 1981).


[107] tapas, sânscrito para “calor”, “ardor”, “brilho”: uma prática ascética do hinduísmo que é usada para alcançar poder espiritual ou purificação. Enquanto nos Vedas tapas é introduzido principalmente como parte do mito da criação, segundo o qual Prajâpati criou o mundo por meio do ascetismo, no hinduísmo posterior torna-se uma parte essencial da prática yogue. Os Yoga Sutras o consideram como um dos cinco niyamas, atos de autodisciplina iogue. De acordo com o sutra 3.43, tapas leva à perfeição do corpo e dos sentidos. Conforme observado por comentaristas, a avaliação positiva de tapas de Patañjali contradiz outras escrituras iogues (Feuerstein, 1997, pp. 304-305).


[108] A compreensão de Jung sobre o conceito de tapas segue amplamente os argumentos de Jakob Wilhelm Hauer em seu estudo Die Anfänge der Yogapraxis im alten Indien (1921). Sobre Hauer, ver nota 116. Para uma discussão mais aprofundada sobre tapas nos Vedas, ver Blair (1961) e Kaelber (1976).


[109] Rigveda, Livro 10, CXXIX: 3–4. Jung possuía uma cópia da tradução alemã de Paul Deussen (1894). Jung também citou a mesma passagem (na tradução de Deussen) em Transformations and Symbols of the Libido (Jung, 1912), §§ 243-245. Lá, Jung vinculou a produção do fogo através da fricção de bastões ao coito sexual. Essa interpretação foi criticada por Gopi Krishna como uma leitura equivocada da produção de energia Kundalini (Krishna, 1988, p. 67). Ver Shamdasani (1996), p. XIX.


[110] Johann Wolfgang von Goethe: “Ultimatum”, em Poetische Werke, vol. 1 (Berlim: 1960), pp. 556-557. Em Transformations and Symbols of the Libido (1912), § 599, Jung já havia ligado a passagem do Rigveda ao poema de Goethe.


[111] Aitareya Brâhmanam 5.32 (1863), p. 253 (Deussen, 1894), p. 183; cf. 181, 183, 187-188, 189, 200, 205. Jung cita esta passagem depois de Deussen (1894), p. 181, em Transformations and Symbols of the Libido (1912) (Jung, 1912, § 596).


[112] Deussen (1894), p. 182: Jung se refere à tradução de Deussen em Transformations and Symbols of the Libido (1912): “A estranha concepção de tapas deve ser traduzida, segundo Deussen, como 'ele se aqueceu com seu próprio calor, com a sensação de que ele meditou, ele chocou.' Aqui o chocador e o nascido não são dois, mas um só e o mesmo ser. [“Der sonderbare Begriff des Tapas ist nach Deussen zu übersetzen als: 'er erhitzte sich in Erhitzung' mit dem Sinne: 'er brütete Bebrütung,' wobei Brütendes und Bebrütung nicht zwei, sondern ein und dasselbe Wesen sind.”] [Jung, 1912, § 597].


[113] Latim para mudança ou mutação.


[114] Deussen (1894), p. 182; ver nota 109.


[115] Patañjali, que escreveu o Yoga Sûtra, às vezes é referido como o autor de Mahâbhâshya (sânscrito para grande comentário), um comentário sobre a gramática de Panini, Astadhyayi. Como foi escrito no século II aC, Jung data o Yoga Sûtra por volta da mesma época. No entanto, é contestado que Patañjali também foi o autor do Mahâbhâshya. Pesquisas recentes datam o Yoga Sûtra entre 325 e 425 dC. Ver Maas (2006), p. xix; também introdução p. 1.


[116] Jakob Wilhelm Hauer (1881–1962), indólogo alemão e especialista em sânscrito, professor da Universidade de Tübingen, fundador do Movimento da Fé Alemã [Deutsche Glaubensbewegung], cujo objetivo era estabelecer uma fé germânica firmemente enraizada nas tradições germânica e nórdica, um renascimento religioso herdado da base germânica. Em 1932 Hauer foi convidado a realizar um seminário sobre Kundalini Yoga no Psychological Club Zurich (3 a 8 de outubro). Jung comentou as palestras de Hauer nas quatro semanas seguintes do mesmo ano (Jung, 1932). Apesar do forte apoio de Hauer aos nazistas, Jung e Hauer mantiveram relações acadêmicas, embora outros projetos de colaboração tenham sido abandonados por Jung (veja a próxima publicação da correspondência entre Jung e Hauer, editada por Giovanni Sorge como parte da Série Philemon). A tradução de Hauer dos Yoga Sûtras de Patañjali a que Jung se refere nesta palestra foi publicada na revista Yoga em 1931 (Hauer, 1931). O texto foi reimpresso em Der Yoga als Heilweg (1932). Jung tinha cópias de ambos em sua biblioteca. Os livros de Hauer incluem Anfänge der Yoga Praxis im alten Indien (1921), Eine indo-arische Metaphysik des Kampfes und der Tat (1934) e no German Faith Movement Deutsche Gottschau. Grundzüge eines deutschen Glaubens (1934a). Sobre Hauer, ver Poewe (2006).


[117] Klesha, sânscrito, que significa “problema” ou “aflição”. "Esses fatores, que podem ser comparados às elaborações de uma geração anterior de psicólogos, fornecem a estrutura cognitiva e motivacional para o indivíduo comum enredado na existência condicional (samsâra) e ignorante do Eu transcendental.” (Feuerstein, 1997, p. 156). De acordo com Patañjali, kriya-yoga visa a atenuação dos kleshas.


[118] No Yoga Sûtra 2.3 Patañjali lista os cinco kleshas: ignorância (ávidyâ), egoísmo (asmitâ), apego (râga), aversão (dvesha) e medo da morte (abhinivesha).


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