Raízes gnósticas de Jung: Philemon, Simão (o Mago) e Helena


Trecho do prefácio de Lance S. Owens para o livro de Alfred Ribi, The Search for Roots: C. G. Jung and the Tradition of Gnosis [A busca pelas raízes: C. G. Jung e a Tradição da Gnose], sem tradução oficial para o português. Em tradução livre por Lampeju.


Os [*] que se encontram no texto, são transcrições de notas de rodapé ou trechos de notas de rodapé traduzidas do texto original; já os [] são observações do tradutor para melhor esclarecimento do conteúdo do texto.


Philemon, Simão (o Mago) e Helena


De modo intrigante, na conclusão do Liber Novus é revelado que Philemon - o “guru espiritual” de Jung mencionado de forma proeminente em Memórias, Sonhos, Reflexões - era o antigo mestre gnóstico Simão, o Mago. Ao considerarmos o modo pelo qual Jung leu a história de Simão, é preciso manter este fato inusitado em mente. Ao contar a história de Simão, o Mago, Shultz [referência utilizada por Jung, Dokumente der Gnosis] citou Hipólito [um dos Padres de Igreja]. O livro de Mead, Fragments of a Faith Forgotten e seu trabalho anterior Simon Magus (todos se encontram na biblioteca de Jung) incluem o mesmo material; o último trabalho de Mead acrescenta citações de outras fontes da Antiguidade que mencionam Simão, o Mago.


Simão, o Mago [* Simon Magus, the Magician], é a primeira figura histórica mencionada nos antigos relatos da tradição gnóstica. A data em que viveu ainda não é clara; a maioria dos autores localiza Simão no primeiro século da era cristã. Os críticos posteriores geralmente identificam Simão, o Mago, como o pai de “heresia” gnóstica. Escrito no final do século II [D.C.], o apologista ortodoxo primitivo Irineu [um dos Padres da Igreja] o chamou de “samaritano Simão, de quem todas as heresias se originaram” [* Irenaeus, Contra Haereses]. Hipólito [um Padre da Igreja a quem Jung acreditava ser um gnóstico disfarçado], entretanto, é a principal fonte sobre Simão, o Mago; ele conta a história de Simão e faz citações de textos atribuídos a ele.


Os relatos sobre a vida de Simão enfatizam que ele tinha uma consorte chamada Helena. Críticos posteriores afirmaram que Helena era uma prostituta que havia sido comprada por Simão que, em seguida, a teria libertado. Simão contou a história de forma diferente, acrescentando a dimensão mitológica ou arquetípica. Ele proclamou que, em Helena havia encontrado e libertado um poder feminino divino escondido dentre a criação física. Helena era uma manifestação da divina Sophia (Sabedoria); através da mediação dela, Simão teria conhecido a Epinoia primordial. Este termo, Epinoia (equivocadamente traduzido como “pensamento” ou “concepção”), aparece com frequência nas subsequentes mitologias gnósticas como título da primeira emanação feminina manifestada a partir do mistério divino primordial.


Simão falou sobre ela: “A sabedoria foi a primeira concepção (ou pensamento) [epinoia] da Minha Mente, a Mãe de Todos, através de quem no início eu concebi em Minha Mente a criação dos Anjos e Arcanjos [Ver nota no final do texto para melhor compreensão]. Usando a metáfora do gênero, Simão explicou que a mente masculina, ou Logos, mantinha uma relação primordial com sua contraparte feminina, que Simão chamou de Epinoia - o pensamento primordial da Mente divina. G. R. S. Mead comentou sobre essa história em seu Fragments of a Faith Forgotten, explicitamente considerando sua natureza psicológica:


“O Logos e seu Pensamento, o Mundo-Alma, foi simbolizado pelo Sol (Simão) e a Lua (Selene, Helena); …Helena era a alma humana caída na matéria e Simão a mente que trás a sua redenção” [* Jung, essencialmente citou Mead neste ponto (sem mostrar a citação) em Mysterium Coniunctionis, onde traz um texto que “descreve uma coniunctio Solis et Lunae” CW 14, 136].


Quando Jung conheceu este texto [do Mead] em 1915, teria ele visto um reflexo de sua própria experiência [referindo-se a seu “confronto com o inconsciente”]? Parece que sim. Em uma visão registrada no início de sua jornada imaginativa [imaginal] durante Dezembro de 1913, Jung se encontrou com Elias e Salomé. No primeiro encontro com Salomé, ele ficou chocado com sua presença [Salomé, na Bíblia, seduziu Herodes através da dança e da sensualidade, obrigando-o a decapitar João Batista] e questionou, “Ela não era a ganância vaidosa e a luxúria criminosa?” Salomé, todavia, declarou seu amor por ele e queria se tornar sua noiva [* Liber novus]. Jung percebeu que também amava Salomé. No esboço do Liber Novus, composto em 1914-1915, ele escreveu uma reflexão sobre seu encontro com Salomé. Aí, ele pondera a relação entre a mente masculina descrita como o predeterminar [ou pensar prévio / Elias], ou Logos) com Salomé, que ele equivale a Eros [* por Eros quero dizer o estar em relação. “Mysterium Coniunctionis, CW 14, 179]. Seu comentário está em paralelo com o relacionamento Logos-Epinoia exposto por Simão, o Mago, em suas considerações sobre Helena. Nos anos 20, Jung ainda escreveu outra análise privada de seu encontro com Elias e Salomé onde afirmou, “eles poderiam muito bem ter sido chamados de Simão, o Mago, e Helena” [* Liber novus].


Provavelmente, Jung também encontrou um espelhamento ainda mais íntimo da história de Simão, o Mago, e Helena com sua vida pessoal. Mas aqui, os detalhes permanecem velados. Assim como Simão com Helena, o encontro de Jung com o mistério da alma foi aparentemente facilitado pelo seu relacionamento com uma mulher. Em 14 de Novembro de 1913, Jung escreveu em seu diário o seguinte comentário endereçado à alma: “E eu te encontrei novamente somente através da alma da mulher” [* Liber Novus]. Pode-se supor que ele estava se referindo a seu relacionamento com Toni Wolff, a mulher que nesta complexa conjuntura de sua vida aparentemente o auxiliou em sua jornada mitopoética. Qualquer que seja a maneira pela qual essa relação é conjecturada, posteriormente em seus comentários psicológicos sobre a “Anima e o Animus”, Jung afirmou que a anima pode “ser realizada somente através da relação com uma parceira de sexo oposto” [Aion, CW 9ii, 22]. A ligação complexa com a anima desempenhou um papel fundamental na psicologia de Jung, e a consorte de Simão, Helena, é frequentemente mencionada. Em 1927, ele escreveu, “o tipo-anima é apresentado de forma mais sucinta e enriquecida na lenda de Simão, o Mago” [* Ele continua, “Na lenda de Simão… os símbolos da anima são encontrados em completa maturidade”. CW 10, 40].


* nota: Irenaeus, Contra Haereses, I, xxiii. 2: “Ele [Simão, o Mago] levou consigo uma certa Helena, uma prostituta contratada na cidade Fenícia de Tiro [Tyre], depois de ter comprado sua liberdade, dizendo que ela havia sido a primeira concepção (ou pensamento) [epinoia] de sua Mente, a Mãe de Todos, por quem no início concebeu em sua Mente a criação dos Anjos e Arcanjos. Que este Pensamento [epinoia], saltando dele e conhecendo a vontade do Pai, desceu às regiões inferiores e gerou os Anjos e Poderes, por quem ele também afirmou que este mundo foi feito. E depois que ela os gerou, foi aprisionada por eles por inveja, pois não queriam ser considerados descendentes de ninguém. Quanto a ele mesmo [Simão ou o Uno], era inteiramente desconhecido por eles [os Anjos e Poderes]; foi o seu pensamento [epinoia] que foi feito prisioneiro pelos Poderes e Anjos que foram emanados por ela. E ela [Helena ou a Epinoia] sofreu todo tipo de indignidades nas mãos deles, para impedir que ascendesse novamente ao Pai, inclusive foi aprisionada em um corpo humano para transmigrar entre corpos femininos, como de um vaso para outro”.


Lance S. Owens

(Tradução livre por Lampeju)

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