Von Franz sobre a Imaginação Ativa


O texto aqui apresentado é uma tradução livre do prefácio escrito por Marie-Louise von Franz ao livro de Barbara Hannah (sem tradução ao português), Encounters with the Soul.


Quando C. G. Jung embarcou na aventura para encontrar seu mito pessoal após sua ruptura com Freud, ele se aventurou dentro do reino do inconsciente coletivo, sem guia e sozinho. Em sua confrontação única ele descobriu, por tentativa e erro, um novo modo de chegar a um acordo com os conteúdos do inconsciente através da realidade unitária da fantasia criativa. Jung, posteriormente, chamou o seu método de “imaginação ativa”, e recomendou-o calorosamente para vários de seus pacientes. Ele descreveu a imaginação ativa como o único caminho na direção de um encontro direto com a realidade do inconsciente sem o uso intermediário de testes ou da interpretação dos sonhos. Embora ele tenha discutido textos sobre imaginação ativa em seminários, não publicou nenhum deles, provavelmente porque tinha percebido quão longe eles estavam em relação ao coletivo, o ponto de vista da consciência de sua época.

Uma grande mudança ocorreu desde então. Na Europa, assim como nos Estados Unidos, surgiram inúmeras técnicas para trazer à tona algumas formas de fantasias inconscientes em um estado de consciência acordado. Todas elas, contudo, são apenas formas de imaginação passiva, que no entanto, têm um efeito salutar. Nos dias de hoje, praticamente não há um único hospital onde pintura, modelagem, dança, música e escrita não sejam usados para ajudar os pacientes a expressar seus problemas. No final de sua vida, Jung comentou que a imaginação passiva havia sido mais ou menos compreendida pelo mundo, diferente da imaginação ativa. Em síntese, o que está faltando é o aspecto ativo, o confronto ético, a entrada ativa de pessoa inteira no drama da fantasia. Mas na minha experiência, é muito difícil para as pessoas entenderem isso de uma forma prática. O livro de Barbara Hannah [Encounters with the Soul] é, portanto, uma ajuda única para essa compreensão através de exemplos bem escolhidos. Seus comentários ponto-a-ponto das histórias e diálogos são surpreendentes e foram muito úteis para mim. As figuras do inconsciente são poderosas e fracas, benevolentes e traiçoeiras, e ter a mente e o coração abertos é necessário para evitar a confusão de possíveis armadilhas que alguém poderia pisar de forma inadvertida enquanto lida com elas.

De certo modo, é preciso já estar potencialmente “inteiro” para entrar no drama; se não estiver, aprenderá a se tornar através de uma experiência dolorosa. A imaginação ativa é a ferramenta mais poderosa da psicologia junguiana para alcançar a totalidade - muito mais eficiente do que a interpretação dos sonhos sozinha. O livro de Barbara Hannah é o primeiro e único livro que conheço que pode promover o entendimento por ilustrações, através de vários exemplos, os passos, as armadilhas e sucessos deste método de encontro com o inconsciente.

Em contraste com as numerosas técnicas de imaginação passiva existentes, a imaginação ativa é feita sozinha, o que pode trazer consideráveis resistências para a maioria das pessoas. É uma forma de jogo, mas uma forma séria e sangrenta. Talvez, portanto, a resistência que muitas pessoas têm em relação a ela possa ser justificada, e ninguém deveria forçar o outro a embarcar nisso inadvertidamente. Com muita frequência, uma situação de absoluto desespero (assim como as que o homem cansado do mundo conheceu) é necessária inicialmente para abrir a porta. Mas eu duvido que alguém que já tenha descoberto a imaginação ativa a deixaria de lado, porque ela pode literalmente fazer pequenos milagres de transformação interior.

Barbara Hannah não apenas tece comentários sobre vários exemplos modernos de imaginação ativa, mas também sobre os dois exemplos históricos mais notáveis. Sabemos que muitos alquimistas usaram a imaginatio vera et non phantastica em seus trabalhos, que era uma forma de imaginação ativa. Nos traz satisfação saber que não estamos lidando com uma inovação esquisita, mas com uma experiência humana que foi vivida também no passado. Ela é na verdade uma forma nova de uma das mais antigas formas de religio, no sentido de “considerar cuidadosamente os poderes numinosos”.


Marie-Louise von Franz

(Tradução livre por Lampeju)


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